Tem gente que encontra o caminho certo logo de cara. Eu não sou esse tipo de gente — e ainda bem.
Cresci em Ibitirama, uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes no Caparaó capixaba, completamente envolvida na cultura do café. Minha família planta café há quatro gerações. Meus pais têm lavoura, meus avós tinham lavoura, eu cresci entre pés de café e nem percebi o quanto aquilo ia definir minha vida.
Vim para Macaé com 21 anos, me formei engenheiro de petróleo e trabalhei nove anos na área — na base, embarcado, no escritório. A vida tava boa. Mas alguma coisa tava faltando.
O queijo que mudou tudo
Um dia, visitando meus pais, meu pai me deu dois queijos. Daqueles feitos em casa, pra consumo próprio mesmo. Levei pro trabalho sem pensar muito — e no fim do dia 16 pessoas tinham me encomendado queijo.
Liguei pro meu pai, combinei o valor, e na semana seguinte eu era um engenheiro de petróleo com uma mochila cheia de queijo no trabalho. Depois vieram o mel, os doces caseiros, a cachaça, a linguiça, o pó de café artesanal.
Fui parando com os produtos perecíveis aos poucos — davam trabalho demais — e ficando só com o café. Fui migrando pra cafés melhores semana após semana, até que um dia descobri o café especial.
Pode parecer estranho: um cara que nasceu dentro de uma lavoura de café, que cresceu com cheiro de café na roupa, nunca ter ouvido falar em café especial. Mas é a mais pura verdade. E quando descobri, não tinha mais volta.
A virada
2018 foi o ano que tudo mudou — pra melhor e pra pior ao mesmo tempo. O negócio do café crescia, eu vendia pra mais pessoas, pras primeiras cafeterias. Mas ainda trabalhava de CLT, e a jornada dupla começou a cobrar seu preço. Ganhei peso, minhas taxas foram todas pro alto, as crises de ansiedade viraram rotina.
Chegou uma hora que eu precisava largar uma das duas. O amor pelo café sempre foi maior.
No final de 2018 tomei a decisão. Conversei com minha família — todo mundo foi contra. Mas no dia 4 de fevereiro de 2019, minha carta de demissão saiu e desde então eu vivo de café. Bebendo e vendendo. rsrs
A torrefação
Comecei torrando naqueles torradores bolinha, bem simples. Depois um torrador rústico emprestado de uns vizinhos lá do sítio. Depois na casa de um amigo que emprestava o dele.
Em outubro de 2020 comprei meu próprio torrador e montei a torrefação aqui em Macaé — num espaço de 44m² em cima de uma padaria. Foi pequeno, foi apertado, foi incrível.
Em agosto de 2022 viemos pra onde estamos até hoje: uma casa ampla, com espaço, com cheiro de café no ar e com a porta sempre aberta pra quem quiser vir tomar um café de graça, ouvir uma história e, quem sabe, falar mal de campista. ☕
— Joabe Dutra, fundador da Colheita Cafés Especiais
